Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus – Ano C

1 Janeiro 2019  – Dia Mundial da Paz

Neste dia, a liturgia coloca-nos diante de evocações diversas, ainda que todas importantes.

Celebra-se, em primeiro lugar, a Solenidade da Mãe de Deus: somos convidados a olhar a figura de Maria, aquela que, com o seu sim ao projecto de Deus, nos ofereceu a figura de Jesus, o nosso libertador. Celebra-se, em segundo lugar, o Dia Mundial da Paz: em 1968, o Papa Paulo VI quis que, neste dia, os cristãos rezassem pela paz. Celebra-se, finalmente, o primeiro dia do ano civil: é o início de uma caminhada percorrida de mãos dadas com esse Deus que nunca nos deixa, mas que em cada dia nos cumula da sua bênção e nos oferece a vida em plenitude. As leituras de hoje exploram, portanto, diversas coordenadas. Elas têm a ver com esta multiplicidade de evocações.

 Numeros  6,22-27– Na primeira leitura, sublinha-se a dimensão da presença contínua de Deus na nossa caminhada, como bênção que nos proporciona a vida em plenitude.

Contexto: O texto da leitura que nos é proposta é retirado da primeira parte do Livro dos Números. No contexto das últimas instruções de Jahwéh a Moisés antes de os filhos de Israel deixarem o Sinai, apresenta-se uma “bênção” que os “filhos de Aarão” (sacerdotes) deviam pronunciar sobre a comunidade do Povo de Deus. Provavelmente, trata-se de uma fórmula litúrgica utilizada no Templo de Jerusalém para abençoar a comunidade, no final das funções litúrgicas e que aqui é apresentada como um dom de Deus no Sinai.

A “bênção” (“beraka”) é concebida como uma comunicação de vida, real e eficaz, que atinge o “abençoado” e que lhe traz vigor, força, êxito, felicidade. É um dom que, uma vez pronunciado, não pode ser retirado nem anulado. Aqui, essa comunicação de vida, fruto da generosidade de Deus, derrama-se sobre os membros da comunidade por intermédio dos sacerdotes – no Antigo Testamento, os intermediários entre o mundo de Jahwéh e a comunidade israelita.

Lição para a nossa vida: Esta “bênção” apresenta-se numa tríplice fórmula, sempre em crescendo de versículo para versículo (no texto hebraico, a primeira fórmula tem três palavras; a segunda, cinco; a terceira, sete). Em cada uma das fórmulas, é pronunciado o nome de Jahwéh… Ora, pronunciar três vezes o nome do Deus da aliança é dar uma nova actualidade à aliança, às suas promessas e às suas exigências; é lembrar aos israelitas que é do Deus da aliança que recebem a vida, nas suas múltiplas manifestações e que tudo é um dom de Deus.

A cada uma das invocações correspondem dois pedidos de bênção: que Jahwéh te abençoe (isto é, que te comunique a sua vida) e te proteja; que Jahwéh faça brilhar sobre ti a sua face (hebraísmo que se pode traduzir como “que te mostre um rosto sorridente”) e te conceda a sua graça; que Jahwéh dirija para ti o seu olhar (hebraísmo que significa “olhar-te com benevolência”, “acolher-te”) e te conceda a paz (“shalom”, no sentido de plenitude da felicidade).

Este texto lembra ao israelita que tudo é dom do amor de Jahwéh e que o Deus da aliança está ao lado do seu Povo em cada dia do ano, oferecendo-lhe a vida plena e a felicidade em abundância.

Na reflexão, ter em conta os seguintes elementos: A primeira linha de reflexão pode ir para a constatação da generosidade do nosso Deus, que não nos abandona nunca, mas continua a criar-nos continuamente, derramando sobre nós a plenitude da vida e da felicidade.

 É de Deus que tudo recebemos: vida, força e aquelas mil e uma pequeninas coisas que enchem a nossa vida e que nos dão instantes plenos. Tendo consciência dessa presença contínua de Deus ao nosso lado, somos gratos por isso? No nosso diálogo com Ele, sentimos a necessidade de O louvar e de Lhe agradecer por tudo o que Ele coloca na nossa existência? Agradecemos todos os seus dons no ano que acaba de terminar?

 É preciso ter consciência de que a “bênção” de Deus não cai do céu como uma chuva mágica que nos molha, quer queiramos, quer não (magia e Deus não combinam); mas a vida de Deus, derramada sobre nós continuamente, tem de ser acolhida no coração com amor e gratidão e, depois, transformada em gestos concretos de amor e de paz. É com o nosso “sim” que a vida de Deus nos atinge.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 66 (67)

Galatas 4,4-7 -Na segunda leitura, a liturgia evoca outra vez o amor de Deus, que enviou o seu “Filho” ao nosso encontro, a fim de nos libertar da escravidão da Lei e nos tornar seus “filhos”. É nessa situação privilegiada de “filhos” livres e amados que podemos dirigir-nos a Deus e chamar-Lhe “papá”.

Contexto:O contexto em que Paulo escreve a Carta aos Gálatas é o de uma profunda crise de identidade das Igrejas da Galácia. À região gálata (centro da Ásia Menor) tinham chegado pregadores que acusavam Paulo de não pregar o verdadeiro Evangelho e que exigiam aos Gálatas a observância fiel da Lei de Moisés, nomeadamente o rito da circuncisão. Estes “pregadores”, oriundos das comunidades judeo-cristãs da Palestina, são conhecidos na história do cristianismo primitivo como “judaizantes”.

Paulo percebe o mal que estes “pregadores” estão a fazer. Eles pretendem transformar o cristianismo numa religião de ritos, num cumprimento de regras externas, numa escravatura a rituais que não tinham nada a ver com a proposta libertadora de Cristo. De forma dura, ele convida os Gálatas a fazer a sua escolha: ou pela escravidão da Lei, ou pela liberdade que Cristo veio trazer.

No texto que nos é proposto, Paulo recorda aos Gálatas a incarnação de Cristo e o objectivo da sua vinda ao mundo: fazer de nós “filhos de Deus” livres.

Lição para nossa vida:Os versículos apresentados como segunda leitura constituem um dos pontos altos da Carta aos Gálatas. Neles, Paulo pretende recordar aos habitantes da Galácia algo fundamental: Cristo veio a este mundo para os libertar, definitivamente, do jugo da Lei… Assim, já não são escravos, mas “filhos” que partilham a vida de Deus.

A palavra-chave é a palavra “filho”, aplicada tanto a Cristo como aos cristãos. Cristo, o “Filho”, veio ao mundo com uma missão concreta: libertar os homens do jugo da Lei, identificá-los consigo. Ora, é em consequência da acção libertadora de Deus em Jesus que os homens deixam de ser escravos para se tornarem “filhos”.

Assim, têm o direito de chamar a Deus “abba” (papá”). Paulo utiliza esta palavra aqui, bem como na Carta aos Romanos, apesar de os judeus nunca designarem Deus desta forma. A insistência de Paulo nesta palavra deve ter a ver com o Jesus histórico: Jesus adoptou esta palavra para expressar a sua confiança filial em Deus e a sua entrega total à sua causa.

Gal 4,4 é o único lugar em que Paulo faz referência à mãe de Jesus. No entanto, Paulo não parece estar interessado em falar de Nossa Senhora, mas antes em sublinhar a solidariedade de Cristo com todo o género humano.

Na reflexão deste texto, podem tocar-se os seguintes pontos: A experiência cristã é, fundamentalmente, uma experiência de encontro com um Deus que é “abba” – isto é, que é um “papá” muito próximo, com quem nos identificamos, a quem amamos e em quem confiamos plenamente. É esta proximidade libertadora e confiante que temos com o nosso Deus?

¨ A nossa experiência cristã leva-nos a sentirmo-nos “filhos” amados, ou ao cumprimento de regras e de obrigações? Na Igreja, não se põe, às vezes, ênfase em cumprir determinados ritos externos, esquecendo o essencial – a experiência de “filhos” livres de Deus?

¨ A importante constatação de que somos “filhos” de Deus leva-nos a uma descoberta fundamental: estamos unidos a todos os outros homens – filhos de Deus como nós – por laços fraternos. É a mesma vida de Deus que circula em todos nós… O que é que esta constatação implica, em termos concretos? O que é que isto significa, no que diz respeito à relação que nos deve ligar com os outros? Faz algum sentido marginalizar alguém por causa da sua raça ou do seu estatuto social?

Lucas 2, 16-21O Evangelho mostra como a chegada do projecto libertador de Deus (que veio ao nosso encontro em Jesus) provoca alegria e contentamento por parte daqueles que não têm outra possibilidade de acesso à salvação: os pobres e os débeis. Convida-nos, também, a louvar a Deus pelo seu cuidado e amor e a testemunhar a libertação de Deus aos homens.

Maria, a mulher que proporcionou o nosso encontro com Jesus, é o modelo do crente que é sensível ao projecto de Deus, que sabe ler os seus sinais na história, que aceita acolher a proposta de Deus no coração e que colabora com Deus na concretização do projecto divino de salvação para o mundo.

Lição para a nossa vida- Os pastores – classe marginalizada de “pecadores”, afastados da salvação de Deus – são os primeiros a quem se revela a boa notícia do nascimento de Jesus. Todo o texto gira à volta da apresentação de Jesus como o Messias libertador, o autêntico libertador dos débeis e dos pobres.

Em primeiro lugar, repare-se como os pastores se dirigem “apressadamente” ao encontro do menino. A palavra “apressadamente” sublinha a ânsia com que os pobres e débeis esperam a acção de Deus em seu favor. Aqueles que vivem numa situação intolerável de sofrimento e de opressão reconhecem que, com Jesus, chegou o momento da libertação e apressam-se a ir ao seu encontro.

Em segundo lugar, repare-se na forma como os pastores reagem ao encontro com Jesus: glorificam e louvam a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido: é a alegria pela libertação que se converte em acção de graças ao Deus libertador. Também se tornam porta-vozes desse anúncio libertador, provocando a admiração de quantos tomavam contacto com o seu testemunho.

Finalmente, atentemos na atitude de Maria: ela “conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração”. É a atitude de quem é capaz de abismar-se com as acções do Deus

libertador, com o amor que Ele manifesta nos seus gestos em favor dos homens. “Observar”, “conservar” e “meditar” significa ter a sensibilidade para entender os sinais de Deus e ter a sabedoria da fé para saber lê-los à luz do plano de Deus. É precisamente isso que faziam os profetas.

A atitude meditativa de Maria, que interioriza e aprofunda os acontecimentos, complementa a atitude “missionária” dos pastores, que proclamam a acção salvadora de Deus manifestada no nascimento de Jesus. Estas duas atitudes dão-nos um bom retrato daquilo que deve ser a existência crente.

Reflexão,  considerar os seguintes dados:  Mais uma vez fica claro, neste texto, o projecto que Deus tem para a humanidade, em Jesus: apresentar-nos uma proposta libertadora, que nos leve a superar a nossa fragilidade e debilidade e a encontrar a vida plena. Temos consciência de que a verdadeira libertação está na proposta que Deus nos apresentou em Jesus e não nas ideologias, ou no poder do dinheiro, ou no brilho da nossa posição social? Quando anunciamos Jesus aos nossos irmãos, é esta a proposta que nós apresentamos – sobretudo aos mais pobres e marginalizados?

 Diante da boa nova da libertação, reagimos – como os pastores – com o louvor e a acção de graças? Sabemos ser gratos ao nosso Deus pelo seu empenho em nos libertar da nossa debilidade e escravidão?

 Os pastores, depois de terem tomado contacto com o projecto libertador de Deus, fizeram-se testemunhas desse projecto. Sentimos, também, o imperativo do “testemunho” dessa libertação que experimentamos?

 Maria “conservava todas estas palavras e meditava-as no seu coração”. Quer dizer: ela era capaz de perceber os sinais do Deus libertador no acontecer da vida. Temos, como ela, a sensibilidade de estar atentos à vida e de perceber a presença – discreta, mas significativa, actuante e transformadora – de Deus, nos acontecimentos banais do nosso dia a dia?

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